04/07/2015

Teias em uma mente empoeirada

Algum tempo atrás resolvi voltar a ler gibis, uma coisa que adorava fazer quando moleque. Resolvi revisitar meu herói predileto, o Homem Aranha e me deparei com uma verdadeira confusão: Peter Parker havia morrido – pelo menos a maior parte dele – e o seu alter-ego era agora o dr. Octopus, um vilão que sempre foi seu maior inimigo; sua namorada é uma cientista anã e o herói não trabalha mais sozinho, liderando um comando de homens e de máquinas criadas por ele tendo como base um local chamado de “ilha das aranhas”. Maior viagem!
Não é preciso dizer que fiquei tão confuso quanto os outros personagens que interagiam com o cabeça de teia. Acostumados com um indivíduo sempre bem-humorado, com uma piada pronta para cada situação, tinham que conviver agora com um sujeito chato, mal-educado e bastante rigoroso com os bandidos que passaram a ter um medo atroz de arriscar um assalto, alguns deles até desistindo da vida de crimes e, pasmem, fazendo terapia!
Ler as revistas não era mais aquela coisa lúdica; as estórias requerem uma concentração semelhante a requerida para se ler Kant ou Foucault! Tornou-se, pelo menos para mim, uma tarefa hercúlea e passei a carregar as revistas (que não tem mais aquele cheirinho viciante de tinta recente, ah!) No carro, no banheiro, no trabalho, parecendo que estava escrevendo uma tese sobre o assunto e a constatação fatal foi a de que aquele mundo do preto no branco não existia mais. A vida nas páginas dos quadrinhos, toda a mitologia Marvel foi atingida de frente pela realidade e adeus terra dos sonhos. Assim tive que comprar números atrasados para tentar entender como por exemplo, Reed Richards – o sr. Fantástico, virou um verdadeiro cretino responsável pela morte (aparente) de Tony Stark. Ah, e ainda comanda uma cidade cheia de alienígenas!

Então era isso. Penei para tomar pé da situação, mas confesso que ainda confundo os vários grupos de mutantes e as cidades onde moram. No entanto percebi o que havia acontecido de fato com o panteão de heróis dos gibis: todos passaram por um intensivo processo de humanização. Aquele diferencial que era característica do Aranha e o fez ídolo de várias gerações agora se espalhou como vírus e nenhum homem ou mulher que vista um uniforme colorido está livre de problemas financeiros, dramas familiares, brigas com namoradas e crises existenciais. O universo dos quadrinhos caiu na Terra, literalmente. Bom, pelo menos na última edição que li, Parker retomou seu corpo e voltou a ser o velho Spidey. Bem-vindo de volta, Cabeça de Teia.

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