17/03/2013

Cozinhando Cook




Estava passeando pelos canais, meio entediado, quando encontrei um stand up. Aquele tipo de apresentação em que um sujeito fica falando, falando, visando ser o mais engraçado possível. Algumas vezes funciona, outras não. Dessa vez era Dane Cook, um dublê de ator e cantor. Estava meio morno mas fiquei assistindo por falta de opção torcendo para que as piadas melhorassem. Ocorre que o forte do rapaz são as expressões faciais e corporais. As chamadas caretas. De vez em quando ele falava uma bobagem qualquer e olhava para a plateia, um estádio de basquete daqueles com o placar suspenso no meio da quadra. O pessoal parecia entusiasmado. Mas aquilo não me contagiou.
Já fazia o movimento em direção ao controle remoto quando ele começou uma estória que envolvia um sujeito que espirrava em sua cara, acho que em uma fila. Contou que foi um barulho horroroso e o sujeito nem cobriu a boca, atirando perdigotos em sua direção. Visando corrigir o sujeito disse com ar irônico “deus o abençoe” e recebeu a seguinte resposta: “eu sou ateu”. Então o comediante disse que iniciaram uma discussão sobre religião onde suas crenças foram duramente atacadas pelo “espirrante ateu”.
É bom que se diga que durante o relato as caras e bocas continuavam arrancando risos e gritinhos do público. A estória em seu final foi coroada com a seguinte pérola: após rir de sua resposta sobre o que aconteceria com ele quando morresse – paraíso, etc, o sujeito afirmou quando replicado que ao morrer iria se juntar com a terra e retornar como uma árvore. Então a deixa dele foi que seria bom que após o tal ateu voltar como uma árvore alguém o derrubasse com um machado, retalhasse seu tronco para fazer papel e imprimisse uma edição da bíblia nele. Risos e aplausos da plateia
Não pude deixar de lembrar de Bill Maher, um ótimo comediante e por sinal ateu. Se a estória era pra ser engraçada não foi, bem como as anteriores até aquele momento. O cara é um chato e eu posso estar sendo parcial por causa da estória criticando uma pessoa teoricamente não religiosa. Porém convenhamos. Que raios de ateu diz que após a morte voltará como uma árvore?!? E além do mais o que provaria se imprimissem a bíblia em seus restos mortais? Seria mais engraçado se a piada fosse com o papa – Cook disse que sua criação era católica - e imprimissem o livro de Darwin nele!
Concluindo, foi interessante porque foi a primeira vez que eu vi a reação religiosa ser levada ao campo do show business, especificamente o da comédia. Mas ao contrário da sensação normal que é ouvir piadas sobre o seu time quando ele perde e rir sem querer por reconhecer que é engraçado, foi uma certa estranheza. O cara utilizou uma piada para fazer uma pregação! Você pode perguntar qual a diferença, quando Maher desce o pau na igreja não estaria ele pregando? Defendendo o ateísmo? A resposta é não. Sabe porque? Ateísmo não é uma crença. As pessoas que acham razoável a hipótese de não existir um responsável pela criação – nos moldes que afirmam a maioria das religiões – causam furor apenas por se posicionar de uma forma não usual, surpreendente a maioria das pessoas chamadas comuns.
Quanto as piadas do rapaz descabelado que se esforça fisicamente para arrancar alguns sorrisos, são realmente bem fracas comparadas aos discursos de comediantes de peso como George Carlin, Louis C.K. ou mesmo o compulsivo Lewis Black. E olha que ele ainda está falando e se contorcendo na quadra de basquete lotada enquanto termino esse texto. Bom, no capitalismo protestante norte americano é normal associações religiosas fazerem lobby através de patrocinados. Até com os mais inusitados.