02/11/2013

Morrer. De novo.

Dia dos Mortos
O filósofo inglês Alan Watts (1915-1973) dizia: "Quando morrer, voltarei para o lugar onde estava antes de eu nascer". É claro que essa não é a resposta que a maioria de nós quer ouvir quando nos questionamos sobre o que é morrer mas o certo é que dificilmente, algum dia, alguém terá uma resposta diferente dessa. Eu disse resposta, não aposta.
De acordo com a crença de cada um temos um bolão milionário rodando pelo planeta. Volta inteiro? Não volta? Vira outra coisa? Passa a viver em outro lugar, em outro plano? Nada melhor que acirrar um pouco essa discussão no Dia de Finados. E olha que hoje em dia só lembram de uma coisa chamada Halloween, que acontece lá em riba, bem em riba. As crianças saem às ruas pedindo doce. Ora, isso aqui é Cosme e Damião.
Mas voltando aos mortos. Outro dia um amigo conversava que tinha um medo estúpido de ser cremado. Disse que se borrava ao pensar que poderia ser queimado vivo. Pensei comigo: É, realmente. Melhor ser enterrado vivo e sofrer em  agonia durante horas. A indagação pressupõe um erro médico e outro pericial, no mínimo. Ressaltemos então que o maior temor é o que se tem da "passagem desta pra melhor".
Quando você dorme e não sonha você existe? Onde estava naquele período em que não viu nada, não percebeu nada, não especulou sobre nada? Parece como desligar uma tomada. Aquele sujeito chato que conversa dentro da sua cabeça não apareceu e então você se calou. Foi uma pausa.
Então vamos supor que ao morrer seja a mesma coisa. Dá nervoso? Claro. Isso só torna a vida ainda mais preciosa ao contrário daquela ideia idiota de sete virgens lhe esperando num harém ou uma casa com carro nas nuvens, repleta daquelas roupinhas anos cinquenta. Essas fugas são paliativos para a dor gerada pela nossa incompetência em resolver questões graves que assolam a humanidade como fome, violência, doenças, etc. Quem nunca sentiu desespero ao se deparar com uma situação na qual não tinha a menor influência, simplesmente fazendo o papel de vítima inerte?
Quando mais rápido se percebe isso mais a vida se torna atrativa, percebe-se melhor o que é realmente importante, deixa-se de lado aquelas coisinhas miúdas e mesquinhas que enchem o saco no dia a dia. Então viva, porra. Viva neste dia dos mortos. 

12/06/2013

Uma nova Idade das Trevas?

Cara, escrever dá trabalho. Colocar um assunto sério em debate então, nem se fala! Devemos tomar cuidado com as citações, referências, etc. Mas como o espaço aqui é meu e tenho uma memória já próxima do alzheimer além de uma preguiça de dar dó, lá vai.
Ultimamente no noticiário tenho assistido com frequência acontecimentos envolvendo religião. Houve uma passeata em Brasília organizada por políticos protestantes contra o casamento gay e contra o aborto. O primeiro, sinceramente, acho caso de liberdade individual e até não sei ao certo porque cargas d'água uma pessoa com bom senso iria se preocupar com a aprovação da sociedade. Principalmente esta sociedade que aí está. O segundo caso é, sinceramente de novo, além de liberdade individual um caso a ser tratado oficialmente pela saúde pública, sem ingerências tendenciosas a nível de ideologia.
A reboque desta questão vem uma bem mais grave: a suspeita de que o responsável pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais foi afastado do cargo por pressão da chamada ala evangélica – prefiro o termo protestante. O ministério da saúde vetou no último dia quatro a campanha do departamento, que envolvia depoimento de prostitutas e material que mostrava casais homossexuais.
Aí temos a manutenção daquela peça na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, um sujeito que acredita poder “curar” todos os gays do país. Outro dia vi um vídeo no youtube onde o apresentador Jô Soares questionava um parlamentar protestante, acho que era o senador Crivella, sobre esta questão. Jô fazia as indagações sempre ressaltando “mas o senhor, um senador...” enquanto as respostas saíam pela tangente.
Finalizando, vem aí a tal jornada mundial da juventude onde milhares de possíveis padres pedófilos enrustidos terão a oportunidade de confraternizar com suas vítimas em potencial....Isso depois da jogada política do Vaticano – O “v” está em maiúscula porque trata-se de um estado – de depor o ex-nazista do trono.
Por que desenrolei todos esses fiapos? Porque cada vez que acompanho um avanço científico que possa beneficiar a humanidade – como uma solda a laser desenvolvida para tecidos humanos que substituiria os tradicionais pontos, doloridos e infecciosos – reflito em como são poucos os que se dedicam a evolução e ao bem estar humanos, e como cresce a multidão de manipuladores, apologistas de falácias baseadas em fantasias, que são como um lastro de toneladas que retrocede a caminhada humana neste universo. Logo eles, que falam tanto em céu, adoram cortar as asas dos outros.

Bom, com dizia um comediante, é gente que assiste aos Flintstones achando que é um documentário.

17/03/2013

Cozinhando Cook




Estava passeando pelos canais, meio entediado, quando encontrei um stand up. Aquele tipo de apresentação em que um sujeito fica falando, falando, visando ser o mais engraçado possível. Algumas vezes funciona, outras não. Dessa vez era Dane Cook, um dublê de ator e cantor. Estava meio morno mas fiquei assistindo por falta de opção torcendo para que as piadas melhorassem. Ocorre que o forte do rapaz são as expressões faciais e corporais. As chamadas caretas. De vez em quando ele falava uma bobagem qualquer e olhava para a plateia, um estádio de basquete daqueles com o placar suspenso no meio da quadra. O pessoal parecia entusiasmado. Mas aquilo não me contagiou.
Já fazia o movimento em direção ao controle remoto quando ele começou uma estória que envolvia um sujeito que espirrava em sua cara, acho que em uma fila. Contou que foi um barulho horroroso e o sujeito nem cobriu a boca, atirando perdigotos em sua direção. Visando corrigir o sujeito disse com ar irônico “deus o abençoe” e recebeu a seguinte resposta: “eu sou ateu”. Então o comediante disse que iniciaram uma discussão sobre religião onde suas crenças foram duramente atacadas pelo “espirrante ateu”.
É bom que se diga que durante o relato as caras e bocas continuavam arrancando risos e gritinhos do público. A estória em seu final foi coroada com a seguinte pérola: após rir de sua resposta sobre o que aconteceria com ele quando morresse – paraíso, etc, o sujeito afirmou quando replicado que ao morrer iria se juntar com a terra e retornar como uma árvore. Então a deixa dele foi que seria bom que após o tal ateu voltar como uma árvore alguém o derrubasse com um machado, retalhasse seu tronco para fazer papel e imprimisse uma edição da bíblia nele. Risos e aplausos da plateia
Não pude deixar de lembrar de Bill Maher, um ótimo comediante e por sinal ateu. Se a estória era pra ser engraçada não foi, bem como as anteriores até aquele momento. O cara é um chato e eu posso estar sendo parcial por causa da estória criticando uma pessoa teoricamente não religiosa. Porém convenhamos. Que raios de ateu diz que após a morte voltará como uma árvore?!? E além do mais o que provaria se imprimissem a bíblia em seus restos mortais? Seria mais engraçado se a piada fosse com o papa – Cook disse que sua criação era católica - e imprimissem o livro de Darwin nele!
Concluindo, foi interessante porque foi a primeira vez que eu vi a reação religiosa ser levada ao campo do show business, especificamente o da comédia. Mas ao contrário da sensação normal que é ouvir piadas sobre o seu time quando ele perde e rir sem querer por reconhecer que é engraçado, foi uma certa estranheza. O cara utilizou uma piada para fazer uma pregação! Você pode perguntar qual a diferença, quando Maher desce o pau na igreja não estaria ele pregando? Defendendo o ateísmo? A resposta é não. Sabe porque? Ateísmo não é uma crença. As pessoas que acham razoável a hipótese de não existir um responsável pela criação – nos moldes que afirmam a maioria das religiões – causam furor apenas por se posicionar de uma forma não usual, surpreendente a maioria das pessoas chamadas comuns.
Quanto as piadas do rapaz descabelado que se esforça fisicamente para arrancar alguns sorrisos, são realmente bem fracas comparadas aos discursos de comediantes de peso como George Carlin, Louis C.K. ou mesmo o compulsivo Lewis Black. E olha que ele ainda está falando e se contorcendo na quadra de basquete lotada enquanto termino esse texto. Bom, no capitalismo protestante norte americano é normal associações religiosas fazerem lobby através de patrocinados. Até com os mais inusitados.

14/02/2013

Olhando sob as pedras


 Estive me atualizando a cerca dos debates entre cientistas e religiosos com relação as propostas existentes, principalmente nos EUA, para implementar o ensino do criacionismo nas escolas. É impossível falar sobre tal assunto sem mencionar ou citar Richard Dawkins, biólogo e grande expoente da frente de cientistas que em todo mundo promovem a divulgação do conhecimento acadêmico em todos os campos e lutam por uma civilização mais laica e racional, menos impregnada de misticismo e superstições.
O sítio de Dawkins publica grande quantidade de material que abrange diversas áreas científicas e é um point obrigatório para quem quer ficar por dentro do que esta rolando. Porém o destaque fica mesmo para a defesa intransigente da evolução natural, teoria que nos últimos anos tem sofrido ataques por parte dos defensores do chamado “design inteligente”. Basicamente esse conceito tem como argumento principal as chamadas “lacunas” encontradas nas descobertas científicas ou seja, se a ciência não explica então foi deus quem criou.
Em seu livro “Deus, um delírio” são refutadas de maneira clara e inteligente todas as tentativas, das mais estúpidas as mais elaboradas, de embasar explicações para a criação que descartem uma evolução gradual baseada na seleção natural e que venham a justificar a crença em um ser superior responsável pelo universo. O biólogo faz um passeio pelas maiores religiões e seus personagens principais, analisando com profundidade os chamados textos sagrados que fundamentam essas crenças, apontando de maneira contundente as incoerências e as fontes comuns que justificam ainda hoje preconceitos, torturas, terrorismo e atitudes totalmente fora das lógica e ética humanas.
Alguns conhecidos líderes religiosos criticam o que chamam de ideologia ateísta divulgadas por Dawkins, acusando-o inclusive de ser um fundamentalista. O YouTube está cheio de vídeos de pastores, padres, etc. defendendo o que chamam de “liberdade religiosa”. É estranho ver um cientista acusado de fanatismo. Mas mais estranho ainda é ler comentários, a maioria de jovens, enquadrando o biólogo como um “aiatolá” ocidental.
O que fica claro quando se presta atenção no que está sendo dito sobre o assunto é que o que está irritando mesmo os religiosos é o fim da idéia disseminada muito naturalmente de que “religião não se discute” e como se mostra cada vez mais ingenua a afirmação de que “não há mal nenhum frequentar a igreja”. Contudo o que mais estarrece é saber que todo esse clamor religioso não é exatamente contra o ateísmo - Dawkins defende, a priori, a teoria da evolução - mas sim algo bem mais sutil e elaborado: desacreditar a ciência junto as pessoas chamadas comuns.