24/09/2014

Marte ataca!

    Chega a Marte outra nave americana e desta vez sua tarefa é estudar a atmosfera do planeta vermelho detalhadamente. Ainda tem um jipe robô por lá furando pedras, estudando a composição do solo. Conhecendo nosso amigos do norte, percebemos que existe um esforço concentrado nos últimos anos com relação à futura colonização. Ou poderíamos deduzir que alguma coisa eles sabem que o resto do mundo não sabe.
    Se analisarmos o ritmo de degradação acelerada do nosso ar e dos recursos naturais deveríamos pensar que a exploração dos planetas próximos é lógica e benéfica para a humanidade à longo prazo. Mas quão longo é esse prazo? Observamos na sociedade atual que a maioria das pessoas são direcionadas pela mídia e pelos governos a cuidarem de suas vidas ou seja, “compre um novo celular e não se preocupe  com o que acontece ao seu redor”. Curtir a vida comprando bobagens parece ser a ordem do dia.
    Como a educação aqui na colônia vai de mal a pior, aumenta o número de jovens ociosos vivendo da renda de seus familiares, ocupando a casa de seus pais aguardando o momento em que a propriedade passará às suas mãos. Assim havemos de convir que essa grande massa não terá a menor probabilidade de vir a governar coisa alguma, engrossando as fileiras do crime organizado ou não na melhor das hipóteses. Mesmo os que ainda estudam não são incentivados a uma carreira científica. Não teremos em breve engenheiros capazes e nossos futuros médicos parecem mais interessados em dinheiro do que em pesquisa.
    Então em um futuro não muito longínquo, digamos 200 a 300 anos, a sociedade estará bem mais polarizada do que está hoje; uma pirâmide altíssima e bem fininha. Uma existência onde poucos viverão à custa de sua inteligência e muitos à custa da selvageria implementada pela lei do mais forte, esses últimos matando por recursos escassos. É claro que ainda teremos a classe dos espertos – leia-se políticos – que ficará com as sobras do que a elite intelectual e econômica produzir. E as pessoas desse último grupo serão as primeiras a pisar em Marte com o objetivo de viver lá.
    Daqui da Terra o restante da humanidade abandonada vai implorar por ajuda que certamente não virá. Pelo menos em quantidade suficiente. Aí alguém solta a pérola: “até lá já morri”, decretando então que o sentido da vida não é coisa para ocupar o nosso tempo; temos muito o que fazer até a noite quando nos acabaremos na balada ou no mais recente show de alguma banda de sucesso. Ah, isso me faz lembrar dos artistas. O que acontecerá com a arte? Bom, creio que o que já está acontecendo. Diluindo-se em uma forma de expressão populista, onde o interesse é a quantidade de gente que se consegue arrastar e não mais a arte em si.
    Viver deveria ser algo mais completo, sendo o homem um ser mais “multitarefa”, com a mente aberta as sensações presentes e a elaborações complexas que abordassem até a origem do cosmo. Mas talvez sejamos projeções e ecos de algum universo possível que já se extinguiu como as estrelas que observamos à noite. Talvez vislumbrar o futuro dessa forma pessimista seja apenas constatar que já estamos mortos. Então... Alegria, alegria!

06/05/2014

Gravidade sanitária

Bem, descobrimos essa semana uma nova forma, inusitada, de "encontrar o criador", "passar desta pra melhor", "esticar as canelas", "visitar a 17", "visitar o morrinho", etc. Eis que um infeliz torcedor recebeu ao sair de um estádio de futebol um vaso sanitário na cabeça. É, uma privada. Não consigo me lembrar de ter ouvido falar de uma morte mais estranha oriunda de um ato humano(?).
Um sujeito, provavelmente super carregado de alguma droga qualquer, quiçá uma overdose de raios gama, entrou no banheiro, arrancou a peça de louça geralmente utilizada para receber dejetos orgânicos, carregou-a até a sacada mais próxima e a deixou em queda livre sobre os transeuntes. E pasmem! Foram dois vasos acelerados tal qual a maça de Newton sobre os alvos humanos. E pasmem novamente! Não havia um segurança ou mesmo outro funcionário qualquer que se colocasse no caminho dos ogros com sanitários às costas ou mesmo desse um simples alerta: "Cuidado! O Hulk pegou um sanitário! Corram!" ou mesmo chamasse outros vingadores mais sensatos.
Imaginem a surpresa do morto ao chegar do outro lado.
- Pô, que dor de cabeça dos infernos...!
- Bem vindo!
- Aqui é o inferno?
- Não mas parece que você saiu de um...
- O que houve? Eu estava saindo do jogo e de repente ficou tudo escuro...
- Você levou uma porrada nos cornos e veio...
- Uma porrada? Que diabos, pela dor deve ter sido um caminhão.
- Não, foi uma vaso sanitário.
- O que?!? Tá de sacanagem!
- Hã, hã. Levaste uma privada no meio da testa!
- Cara, isso só pode ser brincadeira!...
- Se foi, de muito mal gosto.
O resto da cena fica a critério da crença de cada um. No entanto aqui no lado dos vivos a vida parecer transcorrer sem maiores delongas. O fato já foi absorvido e os comentários a respeito diminuem em número e frequência. O que é uma pena pois morrer dessa forma devia ser proibido por lei: "Fica terminantemente proibido o uso de utensílios destinados a dejetos humanos - leia-se merda e urina - para morrer, seja por ato próprio ou de outrem. Cumpra-se a partir de hoje. Assinado pelo encarregado do controle de artefatos sanitários."
Assim neste país que mais parece um penico seguimos colocando no esquecimento mais um cidadão que morreu de forma estúpida, inaceitável, inexplicável e para qual a justiça será mais uma vez incipiente. O vaso acertou a vítima mas a merda parece ter ficado na cabeça do cretino responsável e o fedor se espalha indelével pelos palácios habitados pelas classes governantes.