Algum tempo atrás resolvi voltar a ler
gibis, uma coisa que adorava fazer quando moleque. Resolvi revisitar meu herói
predileto, o Homem Aranha e me deparei com uma verdadeira confusão: Peter
Parker havia morrido – pelo menos a maior parte dele – e o seu alter-ego era
agora o dr. Octopus, um vilão que sempre foi seu maior inimigo; sua namorada é
uma cientista anã e o herói não trabalha mais sozinho, liderando um comando de
homens e de máquinas criadas por ele tendo como base um local chamado de “ilha
das aranhas”. Maior viagem!
Não é preciso dizer que fiquei tão
confuso quanto os outros personagens que interagiam com o cabeça de teia.
Acostumados com um indivíduo sempre bem-humorado, com uma piada pronta para
cada situação, tinham que conviver agora com um sujeito chato, mal-educado e
bastante rigoroso com os bandidos que passaram a ter um medo atroz de arriscar
um assalto, alguns deles até desistindo da vida de crimes e, pasmem, fazendo terapia!
Ler as revistas não era mais aquela
coisa lúdica; as estórias requerem uma concentração semelhante a requerida para
se ler Kant ou Foucault! Tornou-se, pelo menos para mim, uma tarefa hercúlea e
passei a carregar as revistas (que não tem mais aquele cheirinho viciante de
tinta recente, ah!) No carro, no banheiro, no trabalho, parecendo que estava
escrevendo uma tese sobre o assunto e a constatação fatal foi a de que aquele
mundo do preto no branco não existia mais. A vida nas páginas dos quadrinhos,
toda a mitologia Marvel foi atingida de frente pela realidade e adeus terra dos
sonhos. Assim tive que comprar números atrasados para tentar entender como por
exemplo, Reed Richards – o sr. Fantástico, virou um verdadeiro cretino
responsável pela morte (aparente) de Tony Stark. Ah, e ainda comanda uma cidade
cheia de alienígenas!
Então era isso. Penei para tomar pé da situação,
mas confesso que ainda confundo os vários grupos de mutantes e as cidades onde
moram. No entanto percebi o que havia acontecido de fato com o panteão de
heróis dos gibis: todos passaram por um intensivo processo de humanização. Aquele
diferencial que era característica do Aranha e o fez ídolo de várias gerações
agora se espalhou como vírus e nenhum homem ou mulher que vista um uniforme
colorido está livre de problemas financeiros, dramas familiares, brigas com
namoradas e crises existenciais. O universo dos quadrinhos caiu na Terra, literalmente.
Bom, pelo menos na última edição que li, Parker retomou seu corpo e voltou a
ser o velho Spidey. Bem-vindo de
volta, Cabeça de Teia.
