06/06/2015

Morrer


O mais ruim na morte, tirando ela mesma, são as mesmas coisas que nos atormentam em qualquer mudança: os ritos de transição. É mais ou menos como ir a um esperado concerto ou apresentação. Você se estressa com a compra dos ingressos, com onde vai estacionar, com que roupa se vestir e com o atraso de seus acompanhantes. Poderíamos dizer também que é similar a contratar um serviço que aparentemente vai facilitar sua rotina mas que no final vai mergulhá-lo em uma interminável sequencia de reclamações e em um monte de contas exageradas.

Então morrer de alguma forma implica em passar por algumas coisas desagradáveis, dependendo de como se morre. A mais chocosas dessas coisas talvez seja a tristeza que seus entes queridos vão passar; a falta que você fará para eles. Ou se não fizer falta, as desgraças e lembranças ruins que deixou como herança.

Morrer deveria ser mais ou menos como acontece com aqueles índios em velhos filmes de faroeste. Quando decide que a hora chegou, o velho pajé se encaminha para o topo de uma montanha ou qualquer outro lugar tranquilo e senta-se pacificamente para adentrar a escuridão. Digo escuridão. Outras pessoas dizem luz. A verdade é que apesar de muitas estórias a respeito não existe comprovação do que acontece quando realmente você morre.

O que acontece com aquela pessoa dentro da sua cabeça com quem dialoga ao tomar suas decisões, essa sim uma pergunta válida. Você se liberta dela? Isso mesmo, aquele sujeito irritante que lhe impõe um autocontrole quando na realidade você quer explodir tudo. Então outra questão: somos dois? Ou essa é a maneira mais prática que o nosso cérebro encontrou para comandar o corpo? Se somos mais que um quando erramos é por falta de diálogo.

A realidade é que no final do dia estamos sozinhos dentro de nós mesmos, nos questionamos se fizemos nosso melhor. Talvez a morte seja mais ou menos o final de um dia longo e exaustivo, onde vamos recapitular o que deu errado e o que aprendemos. Tá parecendo meio Allan Kardec? Pode ser. As vezes alguém diz a resposta certa, só que para a pergunta errada. Vejo vocês na Caldeira 17, lugar provável para os céticos que costumam perguntar se deus fez o mundo em sete dias o que estava fazendo antes disso. Acho que já sabem a resposta.

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