O
mais ruim na morte, tirando ela mesma, são as mesmas coisas que nos
atormentam em qualquer mudança: os ritos de transição. É mais ou
menos como ir a um esperado concerto ou apresentação. Você se
estressa com a compra dos ingressos, com onde vai estacionar, com que
roupa se vestir e com o atraso de seus acompanhantes. Poderíamos
dizer também que é similar a contratar um serviço que
aparentemente vai facilitar sua rotina mas que no final vai
mergulhá-lo em uma interminável sequencia de reclamações e em um
monte de contas exageradas.
Então
morrer de alguma forma implica em passar por algumas coisas
desagradáveis, dependendo de como se morre. A mais chocosas dessas
coisas talvez seja a tristeza que seus entes queridos vão passar; a
falta que você fará para eles. Ou se não fizer falta, as desgraças
e lembranças ruins que deixou como herança.
Morrer
deveria ser mais ou menos como acontece com aqueles índios em velhos
filmes de faroeste. Quando decide que a hora chegou, o velho pajé se
encaminha para o topo de uma montanha ou qualquer outro lugar
tranquilo e senta-se pacificamente para adentrar a escuridão. Digo
escuridão. Outras pessoas dizem luz. A verdade é que apesar de
muitas estórias a respeito não existe comprovação do que acontece
quando realmente você morre.
O
que acontece com aquela pessoa dentro da sua cabeça com quem dialoga
ao tomar suas decisões, essa sim uma pergunta válida. Você se
liberta dela? Isso mesmo, aquele sujeito irritante que lhe impõe um
autocontrole quando na realidade você quer explodir tudo. Então
outra questão: somos dois? Ou essa é a maneira mais prática que o
nosso cérebro encontrou para comandar o corpo? Se somos mais que um
quando erramos é por falta de diálogo.
A
realidade é que no final do dia estamos sozinhos dentro de nós
mesmos, nos questionamos se fizemos nosso melhor. Talvez a morte seja
mais ou menos o final de um dia longo e exaustivo, onde vamos
recapitular o que deu errado e o que aprendemos. Tá parecendo meio
Allan Kardec? Pode ser. As vezes alguém diz a resposta certa, só que
para a pergunta errada. Vejo vocês na Caldeira 17, lugar provável
para os céticos que costumam perguntar se deus fez o mundo em sete
dias o que estava fazendo antes disso. Acho que já sabem a resposta.
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