O Problema dos Três Corpos e o fim da Física

Estava eu na fila de uma conhecida livraria para trocar um presente de aniversário. Eu sei, parece meio estranho trocar um livro que lhe foi presenteado pois se supõe que a pessoa que o ofertou queira lhe dizer algo, passar alguma mensagem que ache importante. Contudo a própria pessoa me autorizou a trocá-lo caso não achasse a leitura interessante e como era mais um de uma longa lista de títulos de autoajuda com os quais ela me presenteia há anos, decidi então que iria pelo menos aproveitar o presente ao invés de guardá-lo junto com os demais, alguns ainda em papel de presente.
Pois bem. A intenção inicial era obter uma edição de “Os robôs da alvorada”, do Asimov, e completar uma trilogia que comecei a reler e cujos exemplares originais já não tenho. Contudo próximo ao caixa me deparei com uma marcador de livros que chamava a atenção para o livro do Cixin Liu, “O Problema dos Três Corpos”. Como era um vencedor do prêmio Hugo, devolvi o clássico e peguei o tal livro. A primeira coisa que me dei conta era de que nunca, nunca mesmo, havia lido um romance de qualquer autor oriental. Não estou encaixando aqui livros como “Sun Tzu” e outros.
Não consegui largar o livro. Num ritmo alucinante se misturam referências históricas, científicas, antropológicas, políticas, etc. Há muito tempo não via tantos conceitos novos e não me divertia tanto com um texto. Devorei o livro em dois dias, carregando-o de um lado a outro, lendo em qualquer hora vaga que dispusesse. No final a frustração em saber que os outros dois títulos que completam a obra não vão estar disponíveis em português tão cedo. Bom, vou ter que encarar o segundo livro em inglês mesmo (“The Dark Forest”).
Revisando as resenhas e comentários a respeito do livro, lançado aqui no Brasil pela Suma de Letras, constatei que sempre chamam a atenção para a questão do contato com extraterrestres, como seria, o que fariam, o que faríamos; alguns artigos até aprofundando a questão de uma das personagens principais que teria traído a raça humana em uma crença de que não teríamos mais jeito e que o negócio era entregar a barraca a quem soubesse administrar. Forma-se inclusive uma espécie de seita que prega a entrega do planeta aos ET’s; e, como em todo movimento fanático, a interpretação simplista dos acontecimentos faz surgir cismas e divisões.
Contudo o que chamou a minha atenção é uma das questões principais da estória: e se os parâmetros que estivermos usando para a construção da ciência forem relativos (afinal, tudo o é)? E se estivermos a observar apenas acontecimentos fortuitos em nossos laboratórios, trabalhando com dados que, em uma escala de tempo bem maior, se mostrariam insuficientes para corroborar nossas teorias? Não entendeu? Leia os trechos abaixo sobre algo que mexeu com a cabeça do pesquisador Wang durante sua jornada para tentar resolver o mistério do contato alienígena:
“Na hipótese do franco-atirador, um atirador competente dispara contra um alvo,criando furos de dez em dez centímetros. Agora, digamos que a superfície do alvo seja habitada por criaturas inteligentes bidimensionais. Seus cientistas, ao observar o universo, descobrem uma grande lei: “Existe um furo no universo a cada dez centímetros”. Eles interpretaram equivocadamente o resultado do capricho momentâneo do franco-atirador, achando que fosse uma lei permanente no universo.
A hipótese do criador de aves, por sua vez, tem um quê de história de terror. Todo dia de manhã, um criador de perus aparece para alimentar as aves. Um peru cientista, após observar esse padrão se repetir sem alterações durante quase um ano, faz a seguinte descoberta: “Todo dia de manhã, às onze, a comida chega”. Na manhã da véspera de natal, o cientista anuncia essa lei para os demais perus. Porém, às onze da manhã desse dia, a comida não chega: o criador de perus aparece e mata todas as aves.”

Se acompanharmos toda a discussão que vem travando os cientistas atualmente sobre matéria escura, ondas gravitacionais, o comportamento da partícula Higgs, temos a estória do livro perfeitamente encaixada dentro do contexto da física atual. É um livro de ficção cujo objetivo principal é entreter. Mas sinceramente dá um nó no estômago pensar que na próxima vez que sair para comprar pão talvez um cachorro passe flutuando por você e faça xixi em um poste cônico.

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